
Muito cedo tive que lidar com a idéia de que super heróis e vilões podem coexistir em um único ser.
Enquanto escrevo sobre meu pai, em minha mente se formam imagens justapostas de carinho e maus-tratos.
Lembranças das pescarias, dos passeios que davámos nos quais eu era carregada em seus ombros,das longas conversas sobre livros, universo e a existência ou não de Deus...dos gritos, do hálito embriagado, dos objetos voando pela casa, das grosserias e obcenidades que eram ditas aos berros, de suas grandes mãos pegando meu pequeno pescoço e arremessando meu corpo infantil para longe.
Tantas foram as vergonhas e privações que ele impôs a mim e minhas irmãs.
Seria paradoxal eu dizer que amava e odiava na mesma intensidade aqueles dois seres que habitavam naquele ser que ensinaram-me a chamar de pai?
Das filhas eu sempre fui a mais quietinha.
Eu sofria no meu canto sozinha, com minhas lágrimas e vômitos.
Era sempre a mesma história, entrava o ébrio pela porta aos ponta pés, corria eu aos prantos para o banheiro, enfiava o dedo na garganta, me fechava em meu próprio mundo e me deprimia.
Quando ele ganhava dinheiro, ia gastá-lo com suas paixões: mulheres e bebidas. Chegava tarde em casa, nos batia, envergonhava e desaparecia para aproveitar ao máximo seus prazeres. Ficavámos semanas, as vezes meses sem notícias suas. Até que o dinheiro acabava , então voltava ele de mansinho, cabeça baixa, arrependido e mudado, dessa vez tudo seria diferente. Pedia perdão. Estava sempre perdoado.
Mas nada é perfeito, e bastava voltar o dinheiro para que a bebida e a violência voltassem.
Esse ciclo vicioso repetiu-se por mais de vinte anos.
Há dois meses, enquanto eu mudava a direção da minha vida, encontrei meu ébrio pai no meio do caminho. Me vi em meio a uma situação familiar: obcenidades sendo proferidas aos berros em tom ameaçador no meio da rua. Mihas lágrimas começaram a jorrar, foi então que eu vômitei! Vômitei os mais de vinte anos, engolidos na marra e na porrada, em cima dele.
Disse tudo o que sempre tive vontade de falar e nunca havia tido coragem. Vi a mão se levantar e descer com violência, mas foi parada com meu indicador em seu nariz, e a frase que o paralisou :" Você vai me pegar pelo pescoço e me encher de socos?" E diante daquele homem atônito disse o que bem quis, pedi licença e fui cuidar da minha vida com a sensação de não ser mais a preferida. Naquele momento senti que algo se rompia.
Dois dias depois me liga ele sóbrio e aos prantos, dizendo-se arrependido e pedindo perdão. Eu o perdoei. Afinal, dentro do débil vilão ainda existe meu doce herói.
O que mudou? Eu mudei.
Não fico mais calada. Pela primeira vez na vida não tive crises de vômitos e episódios depressivos após uma briga com meu pai.
Estou bem, estou alegre e leve.

3 comentários:
é estranho como podemos sentir dois sentimentos opostos pela mesma pessoa. Ódio e Amor. Sentimentos fortes, extremos e que muitas vezes se confundem.
É, o ser humano não é fácil de entender! Só espero que o amor prevaleça, para o nosso bem mesmo, p vivermos em harmonia... afinal, a vida é curta demais pra carregarmos uma bagagem tão pesada qto esta, né?!
beijos
Em primeiro lugar adorei as mãos. Em segundo, não tente entender o ser humano, felizmente não somos perfeitos.
Siga seu caminho, quem sabe não é tempo de pensar um pouco mais em você... Rumorize-se!
B.
bjss
Obrigada pelo post.
As vezes se esconder é a melhor forma de nos mostrar.
bjss
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